quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

8 e ½ de Fellini ... obra prima!












8 e ½ de Fellini é um filme que reverencia o cinema. Na tela, a complexidade da natureza humana, o inconsciente que aflora e modifica a consciência, a selvageria da vida em sociedade...Muito já se falou sobre o filme, então eu apenas passeio por suas imagens. Belíssimas!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

The Doors


"When You´re Strange: a film about The Doors" é um documentário sobre a banda narrado por Johnny Depp. Com imagens inéditas, o documentário reconstitui a trajetória dos músicos, contextualizando-a historicamente. Também mostra o processo criativo musical, releva bastidores e o lado negro do sucesso. Jim Morrison, claro, é o personagem central. Uma personalidade difícil de definir, outsider, genial. Ao mesmo tempo que era um gigante à frente da banda, emprestando a ela sua alma, também mostrava sua fragilidade, seu descontrole diante do mundo das drogas e das bebidas, suas inseguranças e carências. Fica a impressão de que o sucesso pode ser perigoso demais para aqueles que o merecem. Morrison bateu de frente com tudo, xingou a platéia, comprou briga, foi preso, foi ao limite...e para além dele, encontrou a morte. Ele dizia que Jimmy Hendrix e Janis Joplin estavam esperando por ele. Jim Morrison não foi feito pra esse mundo...sensível demais, talentoso demais, bonito demais...O que fez em sua breve passagem por aqui, no entanto, foi suficiente para que ele deixasse seu nome gravado na história do rock.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Georgia O'Keeffe, uma revolução




Georgia é uma pintora americana modernista (1887-1986) que, para um olhar menos atento, pode parecer um tanto conservadora. Eu mesma confesso que "torci o nariz" para os primeiros quadros que vi, mas depois de conhecer melhor suas pinturas, passei a admirá-las. Suas famosas flores e paisagens eram "pinturas de mulher", exatamente o que a sociedade machista esperava que as mulheres pintassem na época...Olhando um pouco mais para as obras, no entanto, começamos a perceber os elementos subversivos...a obra de O'Keeffe é sexual, em suas flores enxergamos o órgão sexual feminino, em suas cores percebemos uma revolução.
Ela se casou, em 1924, com o fotógrafo Alfred Stieglitz e começou a expor suas obras no atelier dele em Nova Iorque. Depois de um tempo, percebeu a armadilha e se afastou ao constatar que era um mulherengo incorrigível. Descobriu que sofrer por amor consumia sua energia criativa. Foi sozinha para o Novo México e mudou o tom de suas obras...as cores permaneceram, mas agora, ao invés de flores, ela podia pintar, por exemplo, uma ossada de vaca achada no deserto. Georgia O'Keeffe falava que via beleza em tudo, até mesmo nas coisas mais banais. Elas eram transformadas, ganhavam uma "aura" quando transportadas para suas telas. Na medida em que se isolou, libertando-se do amor egoísta, Georgia foi gostando cada vez mais da vida e amadurecendo como artista, até se tornar uma das principais pintoras do século XX, ao lado, por exemplo, de
Frida Kahlo.

sábado, 16 de outubro de 2010

A genialidade da arte ● Josef Frank







Josef Frank (1885-1967) foi um artista, arquiteto e designer têxtil genial, que nasceu na Áustria e viveu boa parte de sua vida na Suécia. Ele produziu mais de 160 estampas e itens de design, usando cores e formas da natureza para criar uma sensação de liberdade e amplitude nos espaços urbanos.

E entrou para a história do design ao defender um modernismo humanizado, capaz de responder às necessidades cotidianas das pessoas e de fazer sobressair a história de vida delas, enfatizando o valor sentimental dos objetos que as cercam.

Não há nada errado com a mistura do velho e do novo, com a combinação de diferentes estilos de móveis, cores e padrões. Tudo o que lhe agrada automaticamente se funde para formar um ambiente relaxante. Uma casa não precisa ser planejada nos mínimos detalhes, deve ser uma amálgama do que o dono ama e das coisas que o fazem se sentir em casa.

(Josef Frank, 1958).

Observando seu trabalho, percebemos que as criações de Josef são atemporais e visionárias, pois carregam uma mensagem nostálgica de valorização da vida simples e bucólica, em contraposição à tendência de hipermecanização e distanciamento da natureza associada à noção de progresso.

Este ano, ele foi homenageado com um Doodle pelo Google, na data de seu aniversário de 125 anos, e a empresa declarou que tem em comum com ele o amor pela inovação, considerando o seu espírito criativo uma fonte de inspiração para uma vida melhor.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Whatever Works - Woody Allen


Tudo pode dar Certo é um filme divertido. Sempre achei interessantes as pessoas que têm uma certa dose de angústia e mau-humor em suas almas, o que as torna divertidas (eu desconfio dos bonzinhos demais). Sempre desconfiei também que as pessoas mais espertas são aquelas que, de algum modo, escolhem "dar um pouco errado" na vida, ser gauche, como diria Drummond. Em algum ponto da trajetória, elas percebem que a única fonte real de sofrimento é tentar corresponder às expectativas dos outros e desencanam de vez. Aí, vivem com menos, mas fazem o que gostam, dão valor aos encontros e aproveitam cada dia, cada ida à banca ou ao bar da esquina.

E é assim que o aparentemente ranzinza, fracassado e inflexível Bóris (interpretado com mérito por Larry David, co-criador de Seinfeld) encontra sua redenção. Ele faz uma retrospectiva mostrando como passou de profissional admirado, indicado ao prêmio Nobel, casado com uma bela mulher e dono de um apartamento luxuoso a professor de xadrez nas ruas de Nova Iorque, encarregando-se de repreender crianças dispersas e enfrentar a ira de seus pais. O que levou Bóris a esta mudança foi uma crise de pânico - e uma tentativa de suicídio- decorrente da constatação de que vivia uma vida sem sentido, sem alma, metódica e pouco estimulante. Enfim, ele chutou o balde e foi morar num apartamentinho pequeno e velho, mas com muita personalidade, onde podia ouvir seus velhos discos de música clássica sem ninguém reclamar. E sua maior diversão passou a ser a convivência diária com os amigos, as discussões, as implicâncias e as brincadeiras.

Deste modo, por estar distraído, Bóris acabou esbarrando com Melody (Evan Rachel Wood), uma moça que é a sua antítese, um sopro de ingenuidade interiorana, de sorriso fácil e mente vazia. E isso se tornou irresistível para Bóris. Ela era a utopia...o quadro em branco para o artista pintar. Um pacto de convivência foi criado, eles se casaram. Ela fez com que Bóris a levasse a lugares onde ele nunca pisaria e aceitasse sua enlouquecida família. Já ele a encarou como sua aprendiz e a encaixou em sua rotina. Nestas cenas, vemos a beleza do que sabemos ser insustentável...e sentimos vontade de pronunciar whatever works!

Outra reviravolta, contudo, muda o rumo da história e as peças do jogo mudam de lugar...No fim, com um sorriso no rosto, lembramos do aviso que Bóris nos dá, no início do filme: "Se vieram ver um filme leve, agradável, podem ir embora. Este filme não é agradável". Impossível não discordar de Bóris/ Allen! O filme nos deixa com a sensação de que a vida pode ser boa, realmente boa, e de que tudo pode dar certo desde não nos preocupemos muito em definir o sentido deste certo. Whatever works!

domingo, 26 de setembro de 2010

figurinos de Grey Gardens






Grey Gardens


Grey Gardens é um filme sobre sentimentos. Sentimentos estes que nunca são fáceis de se entender.

Ele conta a história de duas Edith Beales, mãe e filha, parentes de Jackie Kennedy que pertenceram à alta sociedade americana e que viveram reclusas, a maior parte de suas vidas, na decadente mansão Grey Gardens.

Big Edie e Little Edie, como eram conhecidas, conduzem o espectador por uma viagem intimista que explica porque elas, duas mulheres bem-nascidas, bonitas e talentosas preferiram uma vida de privações e isolamento, convivendo com seus gatos, entoando sozinhas suas canções e treinando seus passos de dança. O flashback é motivado por Albert e David Maysles, dois cineastas que foram à mansão para gravar um documentário sobre elas. Em 1975, realmente, eles estiveram com elas e fizeram um documentário que foi exibido no festival de Cannes, em 1976.

Mãe e filha gostavam de música, dança e poesia, viviam como artistas mas, para isso, abriram mão de levar uma vida "socialmente aceitável" e criaram um mundo à parte. Em uma das cenas mais marcantes, Little Edie confronta a mãe, dizendo que ela a manteve aprisionada na mansão, impedindo que fosse realmente feliz. Big Eddie responde, secamente: você nunca esteve aprisionada nesta casa, podia ter ido embora a qualquer momento. Se há algum lugar onde você esteve aprisionada este lugar é dentro de si mesma.

As atuações de Jessica Lange e Drew Barrymore são incríveis e provocam pensamentos contraditórios. Às vezes enxergamos egoísmo e ressentimento e, no momento seguinte, solidariedade e altivez. Prazer e frustração, medo e coragem, são coisas que se misturam. A mansão Grey Gardens, no final das contas, era o único lugar onde elas podiam ser elas mesmas, representava o gesto de rebeldia contra uma sociedade dura, preconceituosa, que só via vantagem nos pactos financeiros. Alí, no meio da sujeira e das coisas gastas, elas encontravam proteção contra quem não as aceitava como eram.

Em outra passagem, as duas conversam:
- Eddie, você só pode ser realmente feliz se não depender dos outros (a mãe, justificando para a filha porque nunca venderia a mansão).
- Mãe, um dia você me disse o contrário: que eu eu só seria feliz se dependesse dos outros (sobre as pressões que a mãe fazia, quando a filha era jovem, para que fizesse um bom casamento).


Este é um filme sensível, diferente, que prende. A história de duas mulheres
singulares e de duas atrizes que representam-nas de corpo e alma.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Por não estarem distraídos. Clarice Lispector


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são de uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles se admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, com mais aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque eles não estavam mais bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que já eram.Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

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