sexta-feira, 4 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

Por que eu gosto de ler? :: Moacyr Scliar ::

Jantar para os amigos

Na vida, em geral rotineira, dos casais da classe média urbana brasileira, chega o momento em que o marido olha a mulher e anuncia:
- Está na hora de oferecermos um jantar aos nosso amigos.
Ela, pressurosamente concorda, e há várias razões para que concorde. A casa ou o apartamento em que moram tem um living amplo, projetado exatamente com essa finalidade - jantares - e que deve ser usado, sob pena de desperdício de vários e dispendiosos metros quadrados de área construída. Além disto, eles precisam retribuir os inúmeros jantares para os quais foram convidados. Há uma terceira razão, e sobre esta, eles mantêm um silêncio tácito: é que a crise está violenta e o marido - profissional liberal, empresário, ou de outra ocupação - precisa com urgência fazer certos contatos dos quais podem depender, inclusive, os recursos financeiros para futuros jantares. Finalmente - mas isto tem tão pouca importância, não é mesmo? - eles esperam passar algumas horas divertidas em companhia de gente agradável. É uma possibilidade tão remota que eles se resignam a renunciar a ela.
Não podem, contudo, renunciar aos preparativos. Jantar de classe média é uma operação que se compara, em termos logísticos, a uma pequena viagem espacial ou a uma expedição militar de médias proporções. A primeira coisa a fazer é a lista dos convidados - uma tarefa que exige sutileza, habilidade e um raro senso de equilíbrio. Os amigos do casal de classe média em geral se dividem em três categorias: empresários, profissionais liberais e intelectuais. É preciso misturá-los em proporção adequada, sob o risco de se cometer erros irreparáveis. Empresários, naturalmente, não podem faltar, mas que empresários? Não os em má situação financeira, nem os que contestam demasiadamente o governo; melhor os prósperos, gênero sorriso silencioso. Os profissionais liberais são absolutamente indispensáveis, principalmente se o marido também é profissional liberal - um médico, por exemplo, que precisa estar em boas relações com os colegas que lhe mandam pacientes.
O problema, realmente, são os intelectuais - e os artistas. Podem dar à festa um toque de cultura, de bom gosto, e até de exotismo. Infelizmente, eles nem sempre ficam no toque, especialmente quando bebem - e aí podem se tornar inconvenientes, perturbando os demais convivas com exortações à insurreição armada, ao sexo grupal e a outras que tais.
Selecionados, bem ou mal, os convidados, passa-se ao cardápio. E aí, de novo, aparecem os problemas. Parodiando o tribuno famoso: nem sofisticado que pareça ostentação (ou, pior ainda, deboche), nem tão simples que levante a suspeita de indigência. Caviar? Talvez, mas na quantidade adequada. E se a bebida a ser servida for água, simplesmente água, deve ser água da melhor procedência e da melhor safra, uma água que faça os convidados suspirar, após degustá-la: Que água! Fazia tempo que eu não provava uma água como essa!
Outra questão: com música, ou sem? Música de fundo talvez seja uma boa idéia, mas uma orquestra sinfônica executando "O Coro dos Ferreiros", de Verdi, talvez resulte um pouco exagerado. Uma boa solução é usar equipamento de som do dono da casa. O risco aí é aparecer o esnobe comentando que aquele tipo de toca-discos já era, que o receiver está completamente superado e assim por diante. Se a dona da casa toca violino, sempre se pode tentar o "Rêve d'Amour" nº 5, ou o nº 6, mas só em último caso o perigoso nº 7, uma peça capaz de provocar sono irresistível, ou, ao contrário, furiosa exaltação.
Também se deve prestar especial atenção a quem vai servir. Os empregados precisam ser obedientes, mas não obtusos. Sabe-se de uma senhora que recomendou ao garçom trazer o prato principal - leitão assado - com uma maça na boca e ramos de salsa nas orelhas; o homem cumpriu à risca a prescrição e na hora entrou na sala de jantar com a maçã na própria boca e salsa atrás das orelhas; quanto ao leitão, tinha esquecido na cozinha.
Se todos estes problemas forem superados, o jantar pode até correr bem. Mesmo que alguns talheres e cinzeiros desapareçam, não vale a pena revistar os convidados; melhor é aguardar o jantar que os suspeitos provavelmente oferecerão e expropriá-los em silêncio. De qualquer maneira, a festa chegará ao fim e aí marido e mulher, exaustos como se tivessem passado o dia carregando pedras, poderão enfim ir à cozinha para comer um sanduíche e saborear, em paz, uma cervejinha. Provavelmente será esse o melhor momento da noite.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Peggy Wolf...portraits of women











Peggy Wolf is a German Illustrator with a refreshing love of colours, shapes and compositions. She became interested in Illustration during her studies in Fashion Design.Peggy moved to London in 2006 and has since worked on Post Card Designs for Boss Print, Illustrations for Spiderlilly and the magazine Ameera.

She is an excellent communicator and collaborator and loves to be involved in the creation of ideas as well as the process of image-making.

Em alguma árvore, em Buenos Aires

Insomnia - Henry Miller

First it was a broken toe, then a broken brow, and finally a broken heart. But, as I sayed somewhere, the human heart is indestructible. You olny imagine it is broken.What really takes a beating is the spirit. But the spirit too is strong and, if one wishes, can be revived.
:: Henry Miller::

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

8 e ½ de Fellini ... obra prima!












8 e ½ de Fellini é um filme que reverencia o cinema. Na tela, a complexidade da natureza humana, o inconsciente que aflora e modifica a consciência, a selvageria da vida em sociedade...Muito já se falou sobre o filme, então eu apenas passeio por suas imagens. Belíssimas!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

The Doors


"When You´re Strange: a film about The Doors" é um documentário sobre a banda narrado por Johnny Depp. Com imagens inéditas, o documentário reconstitui a trajetória dos músicos, contextualizando-a historicamente. Também mostra o processo criativo musical, releva bastidores e o lado negro do sucesso. Jim Morrison, claro, é o personagem central. Uma personalidade difícil de definir, outsider, genial. Ao mesmo tempo que era um gigante à frente da banda, emprestando a ela sua alma, também mostrava sua fragilidade, seu descontrole diante do mundo das drogas e das bebidas, suas inseguranças e carências. Fica a impressão de que o sucesso pode ser perigoso demais para aqueles que o merecem. Morrison bateu de frente com tudo, xingou a platéia, comprou briga, foi preso, foi ao limite...e para além dele, encontrou a morte. Ele dizia que Jimmy Hendrix e Janis Joplin estavam esperando por ele. Jim Morrison não foi feito pra esse mundo...sensível demais, talentoso demais, bonito demais...O que fez em sua breve passagem por aqui, no entanto, foi suficiente para que ele deixasse seu nome gravado na história do rock.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Georgia O'Keeffe, uma revolução




Georgia é uma pintora americana modernista (1887-1986) que, para um olhar menos atento, pode parecer um tanto conservadora. Eu mesma confesso que "torci o nariz" para os primeiros quadros que vi, mas depois de conhecer melhor suas pinturas, passei a admirá-las. Suas famosas flores e paisagens eram "pinturas de mulher", exatamente o que a sociedade machista esperava que as mulheres pintassem na época...Olhando um pouco mais para as obras, no entanto, começamos a perceber os elementos subversivos...a obra de O'Keeffe é sexual, em suas flores enxergamos o órgão sexual feminino, em suas cores percebemos uma revolução.
Ela se casou, em 1924, com o fotógrafo Alfred Stieglitz e começou a expor suas obras no atelier dele em Nova Iorque. Depois de um tempo, percebeu a armadilha e se afastou ao constatar que era um mulherengo incorrigível. Descobriu que sofrer por amor consumia sua energia criativa. Foi sozinha para o Novo México e mudou o tom de suas obras...as cores permaneceram, mas agora, ao invés de flores, ela podia pintar, por exemplo, uma ossada de vaca achada no deserto. Georgia O'Keeffe falava que via beleza em tudo, até mesmo nas coisas mais banais. Elas eram transformadas, ganhavam uma "aura" quando transportadas para suas telas. Na medida em que se isolou, libertando-se do amor egoísta, Georgia foi gostando cada vez mais da vida e amadurecendo como artista, até se tornar uma das principais pintoras do século XX, ao lado, por exemplo, de
Frida Kahlo.

sábado, 16 de outubro de 2010

A genialidade da arte ● Josef Frank







Josef Frank (1885-1967) foi um artista, arquiteto e designer têxtil genial, que nasceu na Áustria e viveu boa parte de sua vida na Suécia. Ele produziu mais de 160 estampas e itens de design, usando cores e formas da natureza para criar uma sensação de liberdade e amplitude nos espaços urbanos.

E entrou para a história do design ao defender um modernismo humanizado, capaz de responder às necessidades cotidianas das pessoas e de fazer sobressair a história de vida delas, enfatizando o valor sentimental dos objetos que as cercam.

Não há nada errado com a mistura do velho e do novo, com a combinação de diferentes estilos de móveis, cores e padrões. Tudo o que lhe agrada automaticamente se funde para formar um ambiente relaxante. Uma casa não precisa ser planejada nos mínimos detalhes, deve ser uma amálgama do que o dono ama e das coisas que o fazem se sentir em casa.

(Josef Frank, 1958).

Observando seu trabalho, percebemos que as criações de Josef são atemporais e visionárias, pois carregam uma mensagem nostálgica de valorização da vida simples e bucólica, em contraposição à tendência de hipermecanização e distanciamento da natureza associada à noção de progresso.

Este ano, ele foi homenageado com um Doodle pelo Google, na data de seu aniversário de 125 anos, e a empresa declarou que tem em comum com ele o amor pela inovação, considerando o seu espírito criativo uma fonte de inspiração para uma vida melhor.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Whatever Works - Woody Allen


Tudo pode dar Certo é um filme divertido. Sempre achei interessantes as pessoas que têm uma certa dose de angústia e mau-humor em suas almas, o que as torna divertidas (eu desconfio dos bonzinhos demais). Sempre desconfiei também que as pessoas mais espertas são aquelas que, de algum modo, escolhem "dar um pouco errado" na vida, ser gauche, como diria Drummond. Em algum ponto da trajetória, elas percebem que a única fonte real de sofrimento é tentar corresponder às expectativas dos outros e desencanam de vez. Aí, vivem com menos, mas fazem o que gostam, dão valor aos encontros e aproveitam cada dia, cada ida à banca ou ao bar da esquina.

E é assim que o aparentemente ranzinza, fracassado e inflexível Bóris (interpretado com mérito por Larry David, co-criador de Seinfeld) encontra sua redenção. Ele faz uma retrospectiva mostrando como passou de profissional admirado, indicado ao prêmio Nobel, casado com uma bela mulher e dono de um apartamento luxuoso a professor de xadrez nas ruas de Nova Iorque, encarregando-se de repreender crianças dispersas e enfrentar a ira de seus pais. O que levou Bóris a esta mudança foi uma crise de pânico - e uma tentativa de suicídio- decorrente da constatação de que vivia uma vida sem sentido, sem alma, metódica e pouco estimulante. Enfim, ele chutou o balde e foi morar num apartamentinho pequeno e velho, mas com muita personalidade, onde podia ouvir seus velhos discos de música clássica sem ninguém reclamar. E sua maior diversão passou a ser a convivência diária com os amigos, as discussões, as implicâncias e as brincadeiras.

Deste modo, por estar distraído, Bóris acabou esbarrando com Melody (Evan Rachel Wood), uma moça que é a sua antítese, um sopro de ingenuidade interiorana, de sorriso fácil e mente vazia. E isso se tornou irresistível para Bóris. Ela era a utopia...o quadro em branco para o artista pintar. Um pacto de convivência foi criado, eles se casaram. Ela fez com que Bóris a levasse a lugares onde ele nunca pisaria e aceitasse sua enlouquecida família. Já ele a encarou como sua aprendiz e a encaixou em sua rotina. Nestas cenas, vemos a beleza do que sabemos ser insustentável...e sentimos vontade de pronunciar whatever works!

Outra reviravolta, contudo, muda o rumo da história e as peças do jogo mudam de lugar...No fim, com um sorriso no rosto, lembramos do aviso que Bóris nos dá, no início do filme: "Se vieram ver um filme leve, agradável, podem ir embora. Este filme não é agradável". Impossível não discordar de Bóris/ Allen! O filme nos deixa com a sensação de que a vida pode ser boa, realmente boa, e de que tudo pode dar certo desde não nos preocupemos muito em definir o sentido deste certo. Whatever works!

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