Há quase doze anos atrás, um acontecimento surpreendente: virei mãe. Apesar de sempre achar que isso aconteceria um dia, não tinha planos naquele momento. Lembro como se fosse hoje de pegar o papel com o resultado do exame, ver alguns percentuais registrados e, mais abaixo, a palavra positivo. Eu lembro também que sorri e uma felicidade estranha invadiu os meus pensamentos. Não questionava as preocupações que viriam, as noites em claro, os sacrifícios que teria que fazer. Nada disso. O que me veio foi uma sensação de alegria ingênua, dessas que acontecem muito raramente na vida. Na época, eu tinha acabado de completar 24 anos, fazia um mestrado, viajava muito e queria aproveitar a vida. De repente, isso tudo ficou pequeno. Não desapareceu, mas foi imediatamente redimensionado. É como se tudo aquilo que fosse central na minha vida, a partir dali, se tornasse periférico. No centro, apenas o fato de eu ser mãe. As preocupações e sacrifícios chegaram, ao seu tempo, e não tenho a ilusão de que um dia me abandonarão. Na medida em que a minha barriga crescia, ia ficando um pouco mais aterrorizada com o fato de ser responsável pela vida de alguém, dali em diante. Não tinha certeza nem mesmo de que era capaz de cuidar da minha própria vida, como poderia cuidar da de alguém? Esta dúvida, no entanto, também acabou se tornando periférica. Bastavam alguns segundos imaginando como o bebê seria para que as aflições se dissipassem e dessem lugar às imagens que vi num dos primeiros ultrassons que fiz (e que guardei pra sempre na memória): um bebezinho pequeno dando cambalhotas, dentro da minha barriga, chupando dedo (sim, dava pra ver isso!), mostrando as mãozinhas e os pezinhos (que eram apenas ossinhos). Foi a coisa mais extraordinária que vi na vida. Já vivenciei muita coisa legal depois disso, coisas que me emocionaram mesmo, mas nada com esta intensidade. Nada ainda superou o encantamento de me descobrir mãe.
Assim, num dia do mês de maio, nasceu a minha filha, Giovanna. Saí da maternidade com ela no colo, toda embrulhada, e comecei a refletir: o que vou fazer agora? Brincar de boneca, de novo? Era uma boa ideia. E, então, brinquei. Troquei as roupinhas, dei comida, banho, tudo isso. Era fascinante. Para os homens, acho que a experiência corresponderia a ter a chance de se tornar um super-heroi, de virar um homem-aranha ou um super-homem de verdade. De tornar o universo lúdico da infância uma realidade, em plena fase adulta. Por isso, sinto que tive a chance de recomeçar, com o nascimento da minha filha. Pude brincar com panelinhas mais uma vez, jogar banco imobiliário, aprender a andar de bicicleta (ainda não aprendi direito!), passar uma tarde vendo desenho animado, acampar dentro de uma barraca no meio da sala e coisas do gênero. As coisas que me deixavam tão bobamente feliz quando eu era pequena estavam de volta! E aí mora a grande transformação: um filho resgata nossas vivências, traz uma oportunidade incrível de resolvermos nossos recalques, de aprendermos a enxergar o outro. É como se a gente tivesse mais uma chance. Uma chance de encontrar alegria no que há de mais banal, de dar uma pausa e simplesmente ficar alí, no chão, brincando. As surpresas e emoções não param. A cada manhã, quando acordo, penso: é um novo dia, um novo dia pra gente, que bom! Abre-se a possibilidade de viver a felicidade em estado bruto, simples, sem nada demais, sem exageros. O egoísmo que a gente sentia? Inexplicavelmente, vai se apagando. O otimismo que nunca tivemos? Agora, temos. Os momentos de ira, de raiva descontrolada? Não, não cabem mais. O medo das batalhas, que nos deixava com dor de barriga em outros tempos? Agora, somos leoas, podemos quase tudo.
Hoje, sinto que carrego um coração cheio de compaixão, tolerância, entendimento. Um coração que vem sendo construído dentro de mim, com ajuda da minha filha. Desejo a paz, a calma, o viver bem. Consigo sentir com mais força todas as dores do mundo e comemorar as conquistas com mais vontade. Não me tornei perfeita, mas confesso que fiquei zen! Nenhum filho torna os pais perfeitos. Nem mesmo os pais conseguem tornar seus filhos perfeitos. Não somos perfeitos e pronto. O que me tornei foi mais humana, mais sentimental, mais viva. Caíram por terra as defesas e agora estou exposta à vida, ao que ela me traz, sem tantas cobranças.Estou num processo de evolução, de melhoria permanente - e agradeço à minha filha por me ajudar. Eu, que pensei, no início desta aventura, que teria que ajudá-la o tempo todo, agora percebo que o amor incondicional que sentimos uma pela outra também faz com que ela me ajude sempre. Lembro-me, então, daquele chamado tão aparentemente simples, e tão complexo em sua essência, que li um dia: torna-te quem tu és. Sim, eu sinto que estou me tornando quem eu sou, cada vez mais! Obrigada filha, te amo tanto!
Fernanda - ou apenas mamãe.

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